• Jônatas Catunda de Freitas

Como interpretar a biópsia da tireoidectomia

Fez uma cirurgia da tireoide e que entender o laudo histopatológico? Nesse texto vou te explicar em detalhes o que cada informação da biópsia da tireoidectomia signi ca!

É câncer, doutor?

No período entre a cirurgia e a consulta de retorno para mostrar a biópsia os pacientes costumam ficar muito ansiosos por saber qual foi o resultado da cirurgia. Muitos deixam para mostrar o laudo do exame para mim ainda lacrado. Outros se atrevem a ler e chegam ainda mais preocupados pois os termos técnicos assustam. A pergunta que todos querem saber a resposta é se é câncer ou não, e, se for câncer quais são as chances de escapar.

2 tipos de resultado

De uma maneira simples de entender: – O resultado pode ser BENIGNO: bócio colóide adenomatóide, adenoma folicular ou tireoidite. Isso signi ca que os nódulos não eram câncer e não necessitam de nenhum tratamento adicional. Essas doenças não voltam e o paciente ca curado. Nos casos de tireoidectomia parcial podem aparecer no lado da tireoide que sobrou, mas crescem lentamente e muitas vezes não há necessidade de uma nova cirurgia – apenas 10% precisa operar o outro lado.

– O resultado pode ser MALIGNO. O tipo mais comum é o carcinoma papilifero da tireóide, mas existem também o carcinoma folicular, o medular e o anaplásico. Vários pacientes já sabem que tem câncer de tireóide antes da cirurgia, devido a PAAF bethesda V ou VI. Porém em alguns casos é uma surpresa descobrir um carcinoma papilífero na biopsia nal, isso ocorre em até 30% das cirurgias por doença benigna, mas não há necessidade para pânico! É o chamado câncer incidental, achado sem querer. Vários trabalhos mostram que a agressividade é baixa e a chance de cura é muito boa na maioria dos casos.

Carcinoma papilifero da tireóide

O carcinoma papilifero é o tipo mais comum dos tipos de câncer de tireóide, reponsável por mais de 95% dos casos e é sobre ele que irei falar nesse artigo. As chances de cura são muito boas, mas isso depende das características do tumor e do paciente.

Como intepretar

Ao analisar cada caso, avalio a idade da paciente – se maior do que 45 anos, se é homem, se já teve outro câncer, se fuma, se tem história familiar de câncer de tireóide – todos esses são fatores de pior prognóstico. E as características do tumor. Por exemplo: se uma paciente de 25 anos, fez uma tireoidectomia parcial por bocio volumoso e a biópsia encontrou um carcinoma papilifero variante clássica de 0,5cm, sem invasão angiolinfática ou extensão extratireoidiana, margens livres, pT1N0. É um caso extremamente favorável, de muito baixo risco, em que a chance cura é altíssima sem necessidade de nenhum tratamento adicional.

Já um homem de 50, fez uma tireoidectomia total com esvaziamento cervical lateral e recorrencial por carcinoma papilifero de 5cm, variante de células altas, invasão angiolinfatica presente, extensao extratireoidiana presente, linfonodos mestasaticos em todos os níveis linfonodais, pT3N1b. É um caso agressivo, deve fazer radioiodoterapia em dose terapêutica e car atento para recidivas.

Características do tumor

Ao analisar a biópsia procuro identificar fatores de mau prognóstico para saber se estou tratando um gatinho ou um leão, e indicar a radioiodoterapia nos casos mais sérios. É como um jogo dos 7 erros, tentando saber se aquele tumor é do bem ou do mal.

Variante

O CPT tem subtipos, os de pior prognóstico como variante células altas, colunares, esclerosante. Esses costumam dar mais metástases para os linfonodos e recidivar com uma frequência maior. Mas os subtipos mais comuns são mais tranquilos – variante clássica e folicular

Tamanho

O tamanho da lesão é importante pois faz parte do estadiamento. Quanto maior, pior. Lesões malignas maiores do que 4cm tem maior chance de invadir estruturas ao redor da tireóide, por isso são piores.

Extensão extratireoidiana

É um dos principais critérios prognósticos da biópsia. Indica a agressividade da lesão. Quando presente, mostra que o tumor tinha tendência a sair da tireóide e invadir estruturas ao redor. Pode ser microscópica ou macroscópica. Quando presente, indica um risco maior de recidiva.

Multicentricidade

O CPT em alguns casos tem não só um tumor, mas várias lesoes malignas na tireóide. Isso aumenta o risco de recidiva.

Invasão angiolinfática

Se presente indica se a lesão tem tendência a se espalhar para os linfonodos.

Margens

Outro fator importante. Indica se o tumor foi removido completamente = margens livres, ou se ficou tumor = margens comprometidas. Às vezes a paciente apresenta extensão extratireoidiana mínima, ainda não detectável macroscopicamente e a lesão acaba sendo retirada sem uma margem adequada. Não é o ideal, mas na maioria dos casos a iodoterapia consegue tratar o que sobra.

Linfonodos

Hoje em dia já se sabe que linfonodos muito pequenos e próximos a tireóide não são tão ruins. A presença de linfonodos metastaticos é um fator de mau prognóstico, mas as lesões realmente preocupantes são as metástases maiores do que 3cm, principalmente quando laterais – nos níveis II, III, IV ou V.



Sobre o site drtireoide.com

Hoje em dia, com a quantidade de informação disponível na internet  fica difícil encontrar conteúdo de qualidade. E esse é exatamente o meu objetivo, levar  informação de qualidade a quem precisa. As vezes percebo que não consigo passar para o paciente todo o conhecimento sobre a sua doença ou, devido a ansiedade da consulta, o paciente não capta toda a mensagem.  Qualquer dúvida escreva nos comentários. Talvez eu escreva um post ou faça um vídeo sobre o seu problema! Se você quiser  marcar uma consulta comigo, clique aqui. 

Criei esse site para ajudar meus pacientes a entender melhor o seu tratamento. Percebi que os médicos em geral não tem tanto conhecimento sobre tireóide como o cirurgião de cabeça e pescoço tem. Não é fácil encontrar conteúdo de qualidade voltado para pacientes na internet, pois o dr google já diz que tudo é câncer. Por isso tenho essa missão de compartilhar o que sei para facilitar sua vida! Obrigado!

3 visualizações0 comentário