• Jônatas Catunda de Freitas

Esvaziamento cervical no câncer de tireoide – Quais casos vão precisar dessa cirurgia?

O tratamento do câncer de tireóide é cirúrgico. As vezes é preciso tirar mais do que apenas a tireóide pois o câncer se espalhou para os linfonodos do pescoço! Entenda como é o esvaziamento cervical e quem precisa dele!

O que é esvaziamento cervical?

O esvaziamento cervical, ou a linfadenectomia cervical, é a retirada de todos os linfonodos de uma região do pescoço. Essa cirurgia pode entrar na sua história contra o câncer de tireóide em 2 momentos:

Na primeira cirurgia em conjunto com a tireoidectomia, ou ela pode ser feito meses ou anos depois nos casos de recidiva, o retorno do câncer na forma de uma metástase linfonodal.

Em casos agressivos, o esvaziamento pode ser feito tanto na primeira cirurgia quanto anos depois quando a doença recidiva em um local diferente, mas isso não é a regra no câncer de tireóide – nesses casos, mesmo fazendo todo o tratamento com cirurgia e radioiodoterapia, a doença recidiva e a tireoglobulina dificilmente zera. Mas as chances de permanecer vivo, sem morrer por conta do câncer de tireóide, ainda são muito boas se comparadas com outros tipos de câncer.

Níveis cervicais

A divisão e classificação dos níveis cervicais contribui para a padronização das cirurgias e facilitou a comunicação entre diferentes especialidades envolvidas no tratamento do câncer. Também permitiu catalogar quais os padrões de drenagem e para onde a doença envia as primeiras metástases.

A tireóide fica localizada no nível VI, central, e é nesse nível que ocorrem inicialmente as primeiras metástases linfonodais, para os linfonodos peritireoidianos, também chamados recorrencias por ser próximo ao nervo laringeo recorrente. As doenças da tireóide não dão metástases para os níveis mais altos – nível Ia e Ib. Os níveis laterais são o grupos jugulo-carotídeos – II, III e IV , e o nível V é o mais posterior.

Tipos de esvaziamento

O esvaziamento pode ser seletivo, quando não há metástases linfonodais clinicamente detectáveis mas é necessário fazer o esvaziamento profilático – realizado em doenças agressivas, como no carcinoma medular. Ou pode ser eletivo – quando já há metástase detectáveis antes ou durante a cirurgia.

O esvaziamento pode ser apenas do nível VI – chamado de recorrencial ou central – apenas do lado onde há o tumor primário ou bilateral. É o mais realizado. Ou pode ser dos níveis II ao V, chamado de lateral – quando há metástases laterais. Não é possível remover apenas o linfonodo doente, é preciso retirar todos os níveis para reduzir as chances de deixar doença microscópica. Quando ainda não foi feito o recorrencial e há necessidade de esvaziar II a V, esvazio tanto de II a V quanto o VI bilateral. É uma cirurgia maior do que a própria tireoidectomia. As vezes há necessidade até de realizar esvaziamento lateral bilateral devido a agressividade da doença. Um detalhe da nomenclatura é que não é adequado chamar o esvaziamento lateral de tireóide de esvaziamento radical modificado, pois neste tipo também esvaziamos o nível Ia e Ib, o que não é feito para o câncer de tireóide.

Possíveis sequelas e complicações

Esvaziamento recorrencial – Esse esvaziamento envolve a mesma região da tireoidectomia, por isso não precisa de uma incisão maior, nem a recuperação pós- operatória é muito diferente da tireoidectomia, Devido a manipulação mais intensa da região, há risco bem maior de aparecer hipoparatireoidismo e paralisia temporária de prega vocal do que na tireoidectomia total. Leia mais sobre essas complicações nesse outro artigo: Entenda os riscos e saiba quais são as possíveis complicações da tireoidectomia

Esvaziamento II ao V – várias estruturas são dissecadas durante este esvaziamento, trazendo repercussões importantes. A cicatriz é maior, o tempo de internação é maior devido ao uso de drenos de aspiração, a região lateral do pescoço e o lobo da orelha ficam dormentes para sempre, a região ca mais na do que a do outro lado pois toda a gordura é removida. A estrutura mais manipulada e que causa mais incômodo nesta cirurgia é o nervo acessório, responsável pela elevação do membro superior. Nos primeiros dias é normal que não funcione corretamente, causando dificuldade em pentear os cabelos por exemplo. Outras estruturas manipuladas são a veia jugular interna, artéria carótida comum, nervo vago, nervo frênico, nervo hipoglosso…

Recuperação

A recuperação pós-operatória depende de qual cirurgia foi realizada e do paciente operado, mas em geral é muito boa. No esvaziamento recorrencial a maior preocupação é o hipoparatireoidismo, que pode derrubar os níveis de cálcio e causar uma série de sintomas como cãimbras, dormências, formigamentos, agitação, contrações involuntárias, desmaios, nos primeiros dias após a tireoidectomia. Quanto mais precoces e/ou mais intensos forem os sintomas, mais grave é o hipoparatireoidismo. Caso eles apareçam o paciente deve aumentar a dose de cálcio ou até voltar para a emergência do hospital para repor o cálcio diretamente na veia, dependendo da intensidade dos sintomas. No esvaziamento II ao V, a recuperação é um pouco mais demorada devido ao tamanho maior da cirurgia. Em geral exige 2 ou 3 dias de internação por conta dos drenos, repouso por 15 dias e evitar esforço intenso por 1 mês, mas não costuma doer.



Sobre o site drtireoide.com

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