Bócio tóxico (Doença de Plummer) é hipertireoidismo causado por nódulos autônomos que produzem hormônio sem controle do TSH. Diferente de Graves: SEM olhos saltados, TRAb negativo, mais comum após 50 anos. Tipos: adenoma tóxico (1 nódulo) ou multinodular tóxico (vários nódulos). Sintomas: perda de peso, palpitações, tremores. Diagnóstico: cintilografia (nódulo "quente"). Tratamento: radioiodo (1ª escolha) ou cirurgia.
O que é bócio tóxico
Bócio tóxico é quando um ou mais nódulos da tireoide produzem hormônio autonomamente, sem responder ao controle do TSH (hormônio da hipófise).
Outros nomes:
- Doença de Plummer
- Nódulo tóxico
- Adenoma tóxico (1 nódulo)
- Bócio multinodular tóxico (vários nódulos)
Descoberta: 1913, pelo médico americano Henry Plummer
Como funciona (fisiopatologia)
Tireoide normal:
- Hipófise produz TSH
- TSH estimula tireoide a produzir T3 e T4
- Se T3/T4 ficam altos → hipófise reduz TSH (feedback negativo)
Nódulo tóxico:
- Nódulo sofre mutação genética (gene TSHR ou GNAS)
- Nódulo produz hormônio sem precisar de TSH
- Produção descontrolada de T3 e T4
- TSH fica suprimido (menor que 0.1) mas nódulo continua produzindo
- Resto da tireoide fica "dormindo" (suprimida)
Tipos de bócio tóxico
1. Adenoma tóxico (nódulo único)
Características:
- 1 nódulo funcionante (produz hormônio)
- Geralmente maior que 3 cm
- Nódulo benigno (adenoma folicular)
- 20-30% dos bócios tóxicos
Epidemiologia:
- Mais comum: 40-60 anos
- Mulheres 3-4x mais que homens
- Raro em jovens (menos de 30 anos)
2. Bócio multinodular tóxico (vários nódulos)
Características:
- Múltiplos nódulos (2 ou mais funcionantes)
- Geralmente pacientes mais velhos (maior que 60 anos)
- Bócio multinodular antigo que evoluiu para toxicidade
- 70-80% dos bócios tóxicos
História natural:
- Paciente tem bócio multinodular há anos/décadas
- Inicialmente eutireoidiano (TSH normal)
- Com tempo, nódulos se tornam autônomos
- Hipertireoidismo se desenvolve gradualmente
Diferenças entre Bócio Tóxico e Doença de Graves
| Aspecto | Bócio Tóxico | Doença de Graves |
|---|---|---|
| Causa | Nódulos autônomos | Anticorpo TRAb (autoimune) |
| Idade | Maior que 50 anos | 30-50 anos |
| Olhos saltados | ❌ NÃO | ✅ Sim (30%) |
| TRAb | Negativo | Positivo |
| Cintilografia | Captação em nódulos | Captação difusa aumentada |
| Bócio | Nodular | Difuso |
| Ultrassom | Nódulos definidos | Hipoecogenicidade difusa |
| Remissão espontânea | Não | Possível (30-50%) |
| Tratamento medicamentoso | Paliativo | Pode curar (30-50%) |
| Tratamento definitivo | Radioiodo ou cirurgia | Radioiodo, cirurgia ou medicamento |
Causas e fatores de risco
1. Mutações genéticas
Genes envolvidos:
- TSHR: mutação no receptor de TSH (nódulo fica "ligado" sempre)
- GNAS: mutação na proteína G (ativa produção sem TSH)
Como ocorre:
- Mutações somáticas (adquiridas, não hereditárias)
- Acumulam ao longo da vida
- Por isso mais comum em idosos
2. Deficiência de iodo (histórica)
Em áreas com falta de iodo:
- Tireoide aumenta tentando captar mais iodo
- Formação de múltiplos nódulos ao longo de décadas
- Alguns nódulos se tornam autônomos
No Brasil:
- Raro atualmente (sal iodado desde 1950)
- Idosos podem ter desenvolvido bócio antes de 1950
3. Idade avançada
Por que aumenta com idade:
- Mais tempo para acumular mutações
- Bócio multinodular antigo → nódulos tóxicos
- Pico: 60-70 anos
4. Sexo feminino
Mulheres: 3-4x mais comum
- Hormônios femininos
- Gestações múltiplas
5. Fatores desencadeantes
Podem precipitar hipertireoidismo:
- Excesso de iodo: contrastes iodados, amiodarona
- Após correção de deficiência: suplementação de iodo
Sintomas do bócio tóxico
Sintomas de hipertireoidismo (iguais a Graves)
Mais comuns:
- ⚖️ Perda de peso (5-10 kg)
- 💓 Palpitações, taquicardia
- 🤲 Tremores nas mãos
- 🥵 Intolerância ao calor, sudorese
- 😰 Ansiedade, nervosismo
- 💩 Diarreia
- 💪 Fraqueza muscular
Sintomas AUSENTES (diferente de Graves)
❌ Olhos saltados (proptose): NÃO ocorre
- Oftalmopatia é específica de Graves
- Bócio tóxico: olhos normais
❌ Mixedema pré-tibial: NÃO ocorre
Sintomas em idosos (hipertireoidismo apático)
Idosos com bócio tóxico podem ter apresentação atípica:
- Poucos sintomas "clássicos"
- Predomina: apatia, fraqueza, depressão
- Fibrilação atrial (arritmia) - 20-30%
- Insuficiência cardíaca
- Perda de peso acentuada
Importante: Em idosos com fibrilação atrial inexplicada, sempre dosar TSH.
Diagnóstico do bócio tóxico
1. Exames laboratoriais
TSH e hormônios
| Exame | Valor | Interpretação |
|---|---|---|
| TSH | Menor que 0.1 mUI/L | Suprimido |
| T4 livre | Maior que 1.8 ng/dL | Elevado |
| T3 livre | Maior que 4.4 pg/mL | Elevado (pode estar MUITO elevado) |
Padrão: T3 toxicosis é comum
- T3 mais elevado que T4
- TSH suprimido
Anticorpos (para diferenciar de Graves)
TRAb (anticorpo receptor TSH):
- ❌ Negativo no bócio tóxico
- ✅ Positivo na Graves
Anti-TPO:
- Pode ser positivo (20-30%) mas não causa hipertireoidismo
- Indica Hashimoto concomitante
Leia: Exames de tireoide
2. Ultrassom de tireoide
Achados típicos:
- 1 ou múltiplos nódulos bem definidos
- Nódulos sólidos ou mistos
- Tamanho variável (geralmente maior que 2-3 cm)
- Resto da tireoide normal ou atrófica
- Sem aumento de vascularização difusa (diferente de Graves)
Importante: Ultrassom NÃO mostra se nódulo é funcionante. Precisa cintilografia.
3. Cintilografia de tireoide (essencial)
Radiofármaco: Iodo-131 ou Tecnécio-99m
Achados:
Adenoma tóxico (nódulo único):
- ✅ Nódulo "quente": captação aumentada no nódulo
- ❌ Resto "frio": tireoide ao redor suprimida (não capta)
- Padrão: 1 área brilhante + resto escuro
Bócio multinodular tóxico:
- ✅ Múltiplos nódulos "quentes"
- ❌ Áreas frias entre os nódulos
- Padrão: manchado, heterogêneo
Diferença de Graves:
- Graves: captação difusa aumentada homogênea
- Bócio tóxico: captação focal nos nódulos
Quando solicitar:
- Todo hipertireoidismo com nódulos palpáveis/visíveis no ultrassom
- TRAb negativo (confirma que não é Graves)
4. PAAF (punção)
Quando puncionar:
- Nódulo "frio" (não funcionante) no ultrassom
- Nódulo com características suspeitas (hipoecoico, microcalcificações)
Nódulo "quente" precisa puncionar?
- ❌ Geralmente NÃO
- Risco de câncer em nódulo funcionante: menor que 1%
- Exceção: características muito suspeitas no ultrassom
Tratamento do bócio tóxico
Opção 1: Radioiodoterapia (tratamento de escolha)
Iodo radioativo (I-131):
- Destrói nódulos tóxicos
- Dose: geralmente maior que em Graves (20-30 mCi)
- Procedimento ambulatorial
Vantagens:
- ✅ Tratamento de escolha para bócio tóxico
- ✅ Sem cirurgia
- ✅ Cura em 80-90% após 1 dose
- ✅ Pode fazer 2ª dose se necessário (10-20%)
- ✅ Não piora olhos (bócio tóxico não tem oftalmopatia)
Desvantagens:
- ❌ Hipotireoidismo pode ocorrer (30-50% em 10 anos)
- ❌ Contraindicado: gravidez, amamentação
- ❌ Bócio muito volumoso: pode não reduzir tamanho suficiente
- ❌ Demora: melhora em 2-3 meses
Indicações:
- Adenoma tóxico
- Bócio multinodular tóxico sem compressão
- Idosos ou alto risco cirúrgico
- Preferência do paciente
Preparo:
- Suspender metimazol 3-7 dias antes
- Teste de gravidez negativo
- Avaliação cardiológica (idosos)
Opção 2: Cirurgia (tireoidectomia)
Tipo de cirurgia:
- Adenoma tóxico: tireoidectomia parcial (remove lobo com nódulo)
- Multinodular tóxico: tireoidectomia total
Vantagens:
- ✅ Cura imediata
- ✅ Remove bócio volumoso (melhora compressão)
- ✅ Permite diagnóstico histológico (descarta câncer)
- ✅ Pode engravidar logo após (3 meses)
Desvantagens:
- ❌ Cirurgia (riscos: hipoparatireoidismo 5-10%, rouquidão 1-2%)
- ❌ Hipotireoidismo (100% na total, 20% na parcial)
- ❌ Cicatriz
- ❌ Recuperação 7-15 dias
Indicações:
- Bócio volumoso (maior que 80-100g) com compressão
- Sintomas compressivos: dificuldade engolir/respirar
- Nódulos suspeitos (Bethesda III, IV, V, VI)
- Bócio mergulhante (desce para tórax)
- Gravidez planejada em breve
- Contraindicação ao radioiodo
Preparo:
- Normalizar hormônios com metimazol (4-8 semanas)
- Iodo de Lugol 7-10 dias antes
- Laringoscopia pré-operatória
Opção 3: Medicamentos antitireoidianos (paliativo)
Metimazol (Tapazol):
- Dose: 5-20 mg/dia
- Bloqueia produção de hormônios
Vantagens:
- ✅ Controla sintomas rapidamente (2-4 semanas)
- ✅ Prepara para radioiodo ou cirurgia
Desvantagens:
- ❌ Não cura (ao parar medicamento, hipertireoidismo volta)
- ❌ Tratamento vitalício se não fizer radioiodo/cirurgia
- ❌ Efeitos colaterais (coceira, agranulocitose rara)
Indicações:
- Preparo para radioiodo ou cirurgia
- Contraindicação aos tratamentos definitivos
- Hipertireoidismo grave: controlar antes de radioiodo/cirurgia
- Idosos muito frágeis: risco cirúrgico proibitivo
Importante: Metimazol é paliativo. Tratamento definitivo é radioiodo ou cirurgia.
Comparação dos tratamentos
| Aspecto | Radioiodo | Cirurgia | Medicamento |
|---|---|---|---|
| Cura | 80-90% | 100% | ❌ Não cura |
| Tempo para curar | 2-3 meses | Imediato | - |
| Hipotireoidismo | 30-50% | 100% (total), 20% (parcial) | Não |
| Pode repetir | Sim | Não | - |
| Gravidez | 6-12 meses depois | 3 meses depois | Pode (trocar PTU) |
| Bócio volumoso | Pode não reduzir | Remove totalmente | Não reduz |
| Custo | Médio | Alto | Baixo |
| Internação | Não | 1 dia | Não |
| Riscos | Tireoidite actínica | Hipoparatireoidismo, rouquidão | Agranulocitose (raro) |
Bócio tóxico e gravidez
Riscos do hipertireoidismo não tratado
Para mãe e bebê:
- Aborto
- Parto prematuro
- Pré-eclâmpsia
- Baixo peso ao nascer
Tratamento na gravidez
Medicamento:
- Propiltiouracil (PTU): 1º trimestre
- Metimazol: 2º e 3º trimestres (ou manter PTU)
- Dose mínima necessária
- TSH, T4 livre mensal
Cirurgia:
- Pode fazer se necessário
- Melhor época: 2º trimestre
- Normalizar hormônios antes
Radioiodo:
- ❌ Contraindicado (destrói tireoide fetal)
Planejando gravidez
Se tem bócio tóxico:
- Tratar ANTES de engravidar
- Opções:
- Cirurgia: pode engravidar após 3 meses
- Radioiodo: esperar 6-12 meses
- Medicamento: pode engravidar mas precisa PTU
Perguntas frequentes
Quando procurar um especialista
Procure endocrinologista se:
- ✅ Nódulo na tireoide + TSH baixo
- ✅ Sintomas de hipertireoidismo (perda de peso, palpitações)
- ✅ Cintilografia mostrando nódulo "quente"
- ✅ Bócio multinodular antigo com sintomas novos
- ✅ Fibrilação atrial sem causa aparente (idosos)
Procure cirurgião de cabeça e pescoço se:
- ✅ Bócio volumoso compressivo
- ✅ Indicação de tireoidectomia
- ✅ Nódulos suspeitos associados
- ✅ Falha de radioiodoterapia
Conclusão
Bócio tóxico (Doença de Plummer) é forma de hipertireoidismo causada por nódulos autônomos que produzem hormônio sem controle. Diferente da Doença de Graves, não apresenta olhos saltados e é mais comum em idosos. Tratamento definitivo é radioiodoterapia (1ª escolha) ou cirurgia, sendo medicamentos antitireoidianos apenas paliativos.
Pontos-chave:
- ✅ Nódulos autônomos produzem hormônio sem TSH
- ✅ Diferente de Graves: SEM olhos saltados, TRAb negativo
- ✅ Cintilografia: captação focal nos nódulos ("quentes")
- ✅ Tratamento: radioiodo (1ª escolha) ou cirurgia
- ✅ Medicamento é paliativo (não cura)
Com tratamento adequado, bócio tóxico tem excelente prognóstico e permite vida normal.





