Dr. Jônatas Catunda

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Riscos e Complicações da Tireoidectomia: Guia Completo 2026

A tireoidectomia é uma cirurgia segura, mas como todo procedimento envolve riscos. Entenda as possíveis complicações, a frequência de cada uma e quando procurar avaliação rápida.

06 de fevereiro de 202610 min de leitura
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Riscos e Complicações da Tireoidectomia: Guia Completo 2026

Tireoidectomia é cirurgia segura mas tem riscos. Principais complicações: hipoparatireoidismo 5-10% (cálcio baixo, tratável com suplementos), rouquidão 1-2% (lesão nervo laríngeo), sangramento 0.1-1% (reoperação urgência), traqueostomia menos de 0.1% (paralisia bilateral). Mortalidade menor que 0.01%. Recuperação tranquila em 95% dos casos. Benefícios superam riscos quando cirurgia bem indicada.

Algumas pacientes deixam de se operar por conta do medo da cirurgia, mesmo quando têm um câncer de tireoide cujo tratamento é cirúrgico. Olhando para o passado, a cirurgia da tireoide já foi tão perigosa que diziam ser impossível retirar a tireoide sem matar o paciente. Mas com a evolução das técnicas cirúrgicas e anestésicas, atualmente é uma cirurgia extremamente segura.

Para você ter uma ideia, vivemos em um país tão perigoso e violento que o risco de você sofrer um acidente e morrer no caminho do hospital é maior do que o risco de morrer de uma tireoidectomia.

Sempre deixo bem claro quais os riscos e o que pode acontecer após a cirurgia, pois todo procedimento médico tem seus riscos. Apesar de tão baixos quanto 0,0005%, você pode ganhar nessa loteria de azar. Saiba que vou tomar todas as precauções para evitar que isso aconteça e que todas as complicações têm tratamento. A decisão de realizar uma cirurgia é do paciente, pois é ele que vai deitar na maca, ficar inconsciente e ser cortado. Para isso ele deve conhecer os riscos e confiar no cirurgião.

O objetivo deste texto não é te alarmar nem te assustar, mas esclarecer o que pode acontecer. Se a cirurgia foi bem indicada, ela tem que ser realizada, pois os benefícios de operar superam os riscos. Para ler mais sobre as indicações da tireoidectomia, clique aqui.

Fatores relacionados às complicações

Em toda cirurgia, a chance de qualquer complicação acontecer está relacionada a:

  • Ao paciente.
  • Ao tipo de cirurgia.
  • Ao cirurgião.
  • Ao hospital.

Quanto mais idoso for o paciente e quanto mais doenças associadas ele tem, como diabetes e hipertensão, maior o risco de qualquer procedimento. Também quanto mais complexa e maior for a cirurgia, como por exemplo um bócio intratorácico ou um câncer de tireoide invadindo traqueia, maiores são as chances de ter algum problema no pós-operatório. O cirurgião também tem influência nos índices de complicação. Um cirurgião geral que opera 10 tireoides por ano não tem como ter os mesmos bons resultados que um cirurgião de cabeça e pescoço que opera 50 tireoides por ano. O hospital também é importante, pois toda a equipe deve estar treinada e preparada para intervir prontamente em qualquer complicação pós-operatória e evitar suas sequelas, por isso não é em qualquer hospital que faço minhas cirurgias.

Exemplos para deixar mais claro:

  • Uma paciente jovem, sem comorbidades, que vai fazer uma tireoidectomia parcial ou mesmo uma total com um cirurgião de cabeça e pescoço experiente em um hospital bom. O risco de dar alguma coisa errada é muito baixo.
  • Um idoso, fumante, hipertenso, com 3 infartos prévios e que usa mais de 5 remédios por dia, que vai fazer uma tireoidectomia total com esvaziamento cervical radical modificado. É um caso de alto risco. Será necessário avaliação de um cardiologista, vaga de UTI, internação mais prolongada.

Principais complicações da tireoidectomia

Antes de detalhar cada complicação, é importante saber que 95% dos pacientes têm recuperação excelente, recebendo alta no primeiro dia após a cirurgia, sem qualquer complicação.

Tabela de riscos

ComplicaçãoRisco TotalRisco ParcialTemporáriaPermanente
Hipoparatireoidismo5-10%0%10-20%1-2%
Rouquidão2-3%1-2%5-10%Menos de 1%
Sangramento0.1-1%0.1-1%--
TraqueostomiaMenos de 0.1%Muito raro--
Morte anestésica0.0005-0.001%0.0005-0.001%--

Sangramento

Toda cirurgia tem risco de sangrar no pós-operatório. A tireoidectomia é uma cirurgia que envolve a ligadura de artérias e veias de alto fluxo sanguíneo, os pedículos vasculares superiores e inferiores da tireoide. O risco de uma ligadura se soltar e causar um hematoma gira em torno de 0,1% a 1% dos casos e tem risco aumentado com a presença de hipertensão arterial e o uso de antiagregantes plaquetários como o AAS.

O momento do acordar da anestesia tem relação direta com sangramentos pós-operatórios. Pacientes que acordam muito agitados e movimentando-se bastante causam aumento da pressão venosa no pescoço e ocorrem sangramentos.

O sangramento após a tireoidectomia é perigoso porque o hematoma se forma bem próximo da traqueia, podendo rapidamente comprimir a passagem do ar e levando à insuficiência respiratória. O principal sintoma é o curativo encharcado de sangue, o inchaço muito importante do pescoço com o desaparecimento das pregas cutâneas, e a falta de ar. Essa complicação costuma aparecer nas primeiras 6 horas após a cirurgia e a intervenção da equipe de enfermagem e plantonistas pode salvar a vida do paciente até o cirurgião chegar no leito. Os pacientes devem fazer repouso e não se levantarem do leito até a manhã do dia seguinte.

Hipoparatireoidismo

Nós temos 4 glândulas paratireoides, duas de cada lado. Essas glândulas produzem o paratormônio (PTH), responsável pelo controle dos níveis de cálcio no sangue. Na tireoidectomia, elas devem ser cuidadosamente dissecadas e preservadas para evitar o hipoparatireoidismo, a complicação mais comum e mais grave da tireoidectomia.

A hipocalcemia, queda importante dos níveis de cálcio no sangue, causa uma série de sintomas como cãimbras, dormências, formigamentos, agitação, contrações involuntárias, desmaios, nos primeiros dias após a tireoidectomia. Quanto mais precoce e ou mais intensos forem os sintomas, mais grave é o hipoparatireoidismo.

Só existe risco de hipoparatireoidismo na tireoidectomia total, pois os 2 lados da tireoide são abordados e todas as glândulas estão sob risco, sendo esperado algum grau de hipocalcemia. Por isso, todos os pacientes recebem a prescrição de cálcio para repor nos primeiros dias após a cirurgia e evitar esses sintomas. Caso eles apareçam o paciente deve aumentar a dose de cálcio ou até voltar para a emergência do hospital para repor o cálcio diretamente na veia, dependendo da intensidade dos sintomas.

Quando acontece o hipoparatireoidismo definitivo, em que todas as glândulas pararam de funcionar e não se recuperaram após a cirurgia, a paciente precisa tomar 8 a 10 comprimidos de cálcio por dia.

Lesão do nervo laríngeo recorrente

De cada lado da tireoide passam 2 nervos muito importantes para a fala, o nervo laríngeo recorrente e o nervo laríngeo superior, que inervam os músculos das pregas vocais. Na imensa maioria dos casos esses nervos são preservados e não haverá qualquer alteração da voz. Às vezes algum dos nervos terá que ser sacrificado se houver invasão pelo câncer.

A manipulação cirúrgica para soltar a tireoide pode deixar os nervos sem funcionar nos primeiros dias pós-operatórios, causando alteração na voz e rouquidão transitória. Quanto maior o nódulo ou bócio, mais manipulado será o nervo, havendo maior chance de paralisia de prega vocal transitória.

Se a cirurgia é unilateral, os riscos de rouquidão são bem menores do que quando a exploração é bilateral. Menos de 1% das tireoidectomias evolui com paralisia unilateral de prega vocal definitiva, e mesmo nesses casos a rouquidão tem tratamento e reabilitação com fonoterapia.

Traqueostomia

Toda tireoidectomia tem risco de precisar de uma traqueostomia. Esse procedimento serve para garantir a respiração quando a passagem do ar foi interrompida por algum motivo. Pode acontecer alguma complicação na intubação ou extubação, como laringoespasmo grave, fechamento das pregas vocais, edema de glote, traqueomalácia.

No caso da tireoidectomia total, o que pode acontecer é a paralisia bilateral de prega vocal. O risco é muito baixo, mas existe a possibilidade dos 2 nervos laríngeos recorrentes, um de cada lado, ficarem sem funcionar logo após a retirada do tubo orotraqueal da anestesia geral. Como as pregas vocais não se movem, a paciente não consegue respirar e pode até morrer sufocada. O cirurgião deve estar a postos para fazer a traqueostomia de urgência.

Se uma traqueostomia foi necessária após a sua tireoidectomia, você não faz ideia do sufoco que escapou. A traqueostomia provavelmente salvou a sua vida e você deve agradecer por estar viva para contar a história.

Anestesia

A cirurgia da tireoide envolve anestesia geral. Existe um mito de que a anestesia geral é perigosa, isso porque no passado realmente era. Mas atualmente o anestesista tem todo o controle dos parâmetros do paciente e está pronto para intervir em qualquer ocorrência.

Em geral, a taxa de mortalidade da anestesia geral é de apenas 1 em cada 100.000 a 200.000 procedimentos, o que significa um risco de morte de 0,0005% a 0,001%, uma verdadeira loteria. Esse risco está bastante ligado ao paciente e não à anestesia em si. Idosos, fumantes, obesos, usuários de drogas e pessoas com história de alergias ou até mesmo reação anafilática têm risco anestésico aumentado.

Complicações clínicas

Algumas complicações clínicas também podem ocorrer após a cirurgia da tireoide. Para evitar isso é muito importante a avaliação pré-operatória. Como a cirurgia não é de urgência nem as doenças da tireoide crescem muito rápido, é seguro perder algumas semanas realizando exames antes de operar para identificar qualquer problema de saúde conhecido ou não, e aumentar a segurança do procedimento.

Toda a sua história médica deve ser revisada, relatando doenças que teve, cirurgias que fez, internações hospitalares prévias, transfusão de sangue, alergias, pois a maioria das complicações clínicas pós-operatórias tem relação com doenças que o paciente já apresentava no pré-operatório.

No pós-operatório, pode por exemplo acontecer infarto agudo do miocárdio em um paciente com doença coronariana prévia, pneumonia em um paciente asmático, tromboembolismo pulmonar em uma paciente com histórico de trombose venosa profunda, infecção urinária em um paciente que não tratou bem uma cistite.

Infelizmente, mesmo tomando todas as providências, às vezes infortúnios acontecem e não temos como prevê-los. É torcer para dar tudo certo e rezar para que não ocorra nenhum problema durante e após a cirurgia.


Perguntas frequentes


Como reduzir os riscos

Escolha bem o cirurgião:

  • ✅ Cirurgião de cabeça e pescoço (especialista)
  • ✅ Volume cirúrgico maior que 20 tireoides/ano
  • ✅ Usa monitorização de nervo intraoperatória
  • ✅ Solicita laringoscopia pré-operatória

Prepare-se adequadamente:

  • ✅ Controle doenças prévias (diabetes, hipertensão)
  • ✅ Pare anti-inflamatórios 7 dias antes
  • ✅ Exames pré-operatórios atualizados
  • ✅ Suspenda cigarro (reduz complicações pulmonares)

Escolha um bom hospital:

  • ✅ UTI disponível (mesmo que não precise)
  • ✅ Equipe treinada em complicações pós-operatórias
  • ✅ Banco de sangue
  • ✅ Exames laboratoriais 24 horas

Conclusão

Tireoidectomia é cirurgia segura quando bem indicada e realizada por especialista experiente. Complicações existem mas são raras e tratáveis. Os benefícios de tratar adequadamente nódulos ou câncer de tireoide superam amplamente os riscos quando cirurgia é necessária.

Pontos-chave:

  • ✅ 95% recuperação excelente sem complicações
  • ✅ Hipoparatireoidismo: 5-10% (1-2% permanente)
  • ✅ Rouquidão: 2-3% (menos de 1% permanente)
  • ✅ Mortalidade: menor que 0.01%
  • ✅ Cirurgião especialista reduz riscos significativamente

Não deixe de tratar sua doença por medo das complicações. Converse com seu cirurgião, tire todas as dúvidas e confie na equipe que vai te operar.

Dr. Jônatas Catunda

Sobre o autor

Dr. Jônatas Catunda

CRM-CE 14951 • RQE 8522

Cirurgião de Cabeça e Pescoço, especialista em tireoide. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), com residência em Cirurgia Geral no Instituto Dr. José Frota e em Cirurgia de Cabeça e Pescoço no Hospital Universitário Walter Cantídio. Mestrado e Doutorado pela UFC.

Professor de Anatomia
13 anos de formado
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