O hiperparatireoidismo é uma doença comum, mas extremamente subdiagnosticada: mais de 70% dos pacientes são completamente assintomáticos e só descobrem o problema em exames de rotina. Acomete principalmente mulheres e sua incidência aumenta com a idade.
O que é hiperparatireoidismo?
Hiperparatireoidismo é o excesso de paratormônio (PTH), um hormônio produzido pelas glândulas paratireoides — quatro pequenas estruturas localizadas no pescoço, muito próximas à tireoide.
O PTH é responsável por regular os níveis de cálcio no sangue. Quando ele é produzido em excesso, os níveis de cálcio sobem além do normal — condição chamada de hipercalcemia — e isso pode causar danos em vários órgãos.
Valores de referência
| Exame | Normal |
|---|---|
| Cálcio total | 8,5 – 10,5 mg/dL |
| PTH | 15 – 65 pg/mL |
Tipos de hiperparatireoidismo
Hiperparatireoidismo primário (90% dos casos)
Causado por doença na própria paratireoide:
- Adenoma (tumor benigno em 1 glândula): 85% dos casos
- Hiperplasia (todas as 4 glândulas aumentadas): 15% — frequentemente ligada a doenças genéticas como MEN1 e MEN2A
- Carcinoma de paratireoide: menos de 1% — forma rara e agressiva
Hiperparatireoidismo secundário
Causado por outra doença que força as paratireoides a trabalhar mais:
- Insuficiência renal crônica (principal causa): pacientes em hemodiálise têm todas as glândulas acometidas — forma mais grave e deletéria
- Deficiência severa de vitamina D
- Má absorção intestinal
Hiperparatireoidismo terciário
Ocorre após anos de hiperparatireoidismo secundário sem tratamento adequado. As glândulas tornam-se autônomas e continuam produzindo PTH mesmo após correção da causa original. Frequentemente exige cirurgia.
Sintomas do hiperparatireoidismo
70% dos pacientes não têm sintomas
A maioria dos casos é descoberta por acaso, em exame de sangue de rotina que mostra cálcio elevado. Por isso, é fundamental que médicos identifiquem e investiguem a hipercalcemia — um sinal laboratorial que não deve ser ignorado.
Sintomas clássicos (quando a doença está mais avançada)
Rins ("pedras"):
- Cálculos renais recorrentes
- Nefrocalcinose (depósito de cálcio nos rins)
- Insuficiência renal progressiva
Ossos ("ossos"):
- Osteoporose, especialmente em pacientes jovens
- Dor óssea
- Fraturas patológicas (por osso frágil, sem trauma relevante)
Sintomas gastrointestinais ("gemidos"):
- Úlcera péptica
- Pancreatite
- Constipação intestinal, náuseas
Sintomas inespecíficos (frequentes, mas subestimados):
- Fadiga e fraqueza muscular
- Dores pelo corpo
- Depressão, ansiedade, alterações de humor
- Dificuldade de concentração
- Distúrbios do sono
Como é feito o diagnóstico?
O hiperparatireoidismo é uma das poucas doenças com diagnóstico exclusivamente laboratorial.
Dois exames confirmam o diagnóstico:
- Cálcio elevado no sangue (acima de 10,5 mg/dL)
- PTH elevado (ou inadequadamente normal para o nível de cálcio)
Esses dois resultados juntos, em dois momentos diferentes, fecham o diagnóstico.
Exames de localização (após confirmar o diagnóstico)
Antes da cirurgia, é preciso localizar qual glândula está doente:
| Exame | Precisão |
|---|---|
| Cintilografia MIBI (sestamibi) | 80–90% |
| Ultrassom cervical | complementar |
| TC 4D | casos complexos |
| PET-colina | recidivas e localização difícil |
Tratamento do hiperparatireoidismo
O único tratamento definitivo é cirúrgico — a paratireoidectomia.
A cirurgia remove a glândula doente (adenoma único) ou, nos casos de hiperplasia, as glândulas aumentadas. É feita com anestesia geral, por uma incisão pequena de 3 a 5 cm no pescoço.
Quando operar?
Indicações formais de cirurgia:
- Cálcio acima de 11 mg/dL
- Cálculo renal ou nefrocalcinose
- Osteoporose (T-score abaixo de -2,5)
- Idade abaixo de 50 anos
- Fratura por fragilidade óssea
- Função renal reduzida (FG < 60 mL/min)
Pacientes assintomáticos com cálcio discretamente elevado podem ser monitorados — mas a maioria dos especialistas recomenda operar para evitar progressão.
Resultados
- Taxa de cura: 95–98%
- Alta hospitalar: em 1 dia
- Retorno ao trabalho leve: 7 a 15 dias
- O principal cuidado pós-operatório é monitorar o cálcio, que pode cair temporariamente após a cirurgia
Perguntas frequentes
O hiperparatireoidismo é tratável e tem excelente prognóstico quando diagnosticado a tempo. Não deixe um cálcio alto no exame de sangue passar sem investigação — pode ser o único sinal de uma doença que está, silenciosamente, prejudicando seus rins e seus ossos.



