• Jônatas Catunda de Freitas

Traqueostomia após a tireoidectomia

Neste artigo vou te explicar uma das possíveis complicações da tireoidectomia e a sua consequência – a necessidade de traqueostomia!

Você não deve saber disso, mas toda cirurgia tem risco de precisar de uma traqueostomia, principalmente as da cabeça e pescoço. Esse procedimento serve para garantir a respiração quando a passagem do ar foi interrompida por algum motivo. Pode ser necessária por vários motivos, como alguma complicação na intubação ou extubação, laringoespasmo grave, edema de glote, traqueomalácia, sangramentos… No caso da tireoidectomia total o que pode acontecer é a paralisia bilateral de prega vocal.

O que é traqueostomia?

A traqueostomia é a abertura da traquéia e a colocação de um tubo para respiração diretamente por ela. Na maioria dos casos é temporária e a abertura fecha e cicatriza em duas semanas, para isso basta retirar o tubo.

Inervação da laringe

A cirurgia da tireóide é um procedimento extremamente complexo e só deve ser realizado por quem entende do assunto – o cirurgião de cabeça e pescoço. De cada lado da tireóide passam 2 nervos muito importantes para a fala – o nervo laringeo recorrente que inerva quase todos os músculos das pregas vocais, e o nervo laringeo superior – inerva o músculo cricotireóide que atua aumentando o tom da voz. Na imensa maioria dos casos esses nervos são preservados e não haverá qualquer alteração da voz.

Paresia e paralisia de prega vocal

A manipulação cirúrgica para soltar a tireóide pode deixar os nervos sem funcionar nos primeiros dias – o que chamamos de paresia, causando a alteração na voz e rouquidão transitória. Quanto maior o nódulo ou bócio e nos casos de câncer, mais manipulado será o nervo, havendo maior chance de paresia de prega vocal. Após duas semanas, a maioria dos casos de paresia de prega vocal já se recuperaram. Caso não haja melhora, pode ser que o nervo foi lesado e irá evoluir para a paralisia de prega vocal, que é definitiva. Menos de 1% das tireoidectomias evolui com paralisia unilateral de prega vocal definitiva, e mesmos nesses casos a rouquidão tem tratamento e reabilitação com fonoterapia.

Risco de traqueostomia

Na paresia de prega vocal unilateral, a paciente pode ficar com rouquidão nos primeiros dias. Mas se a paresia for bilateral, o problema é bem maior. O risco é muito baixo, mas existe a possibilidade dos 2 nervos laringeo recorrentes – um de cada lado, ficarem sem funcionar logo após a retirada do tubo orotraqueal da anestesia geral. Como as pregas vocais não se movem, a paciente não consegue respirar e pode até morrer sufocada. O cirurgião deve estar a postos para fazer a traqueostomia de urgência.

Entenda:

Se uma traqueostomia foi necessária após a sua tireoidectomia, você não faz idéia do sufoco que escapou. A traqueostomia provavelmente salvou a sua vida e você deve agradecer por estar viva para contar a história. O risco de precisar de traqueostomia é maior nas seguintes situações:

  1. Bócios muito volumosos

  2. Quando um dos nervos precisou ser sacri cado devido invasão tumoral

  3. Esvaziamento recorrencial bilateral

  4. Totalização com paralisia de prega vocal prévia

  5. Reoperações em um mesmo lado

Nesses casos há indicação de utilizar a monitorização de nervo intraoperatória, uma ferramenta que ajuda o cirurgião a identificar melhor e acompanhar o funcionamento do nervo durante toda a cirurgia, podendo interrompê-la caso haja perda de sinal em um lado – evitando assim o risco de paralisia bilateral e traqueostomia. Como toda ferramenta, só tem o seu potencial aproveitado por quem sabe utilizá-la. Dê um monitor de nervo a um cirurgião cardíaco e ele não irá conseguir preservar o nervo, pois não conhece a anatomia da tireóide. O monitor de nervo não substitui a habilidade técnica e o conhecimento anatômico de um cirurgião experiente.

Após a tireoidectomia, a traqueostomia quando é necessária é feita na mesma incisão. Antes da alta hospitalar, o traqueóstomo com balão é trocado por um metálico. Ele possui duas cânulas, uma interna e uma externa. A cânula interna deve lavada pelo menos 3x ao dia para evitar acumulo de secreção e formação de rolhas. Após a alta a paciente deve fazer a laringoscopia para avaliar a função da laringe e o movimentos das pregas vocais. Em geral, após duas semanas os movimentos já foram recuperados e a traqueostomia pode ser removida.

Sobre o site drtireoide.com

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Criei esse site para ajudar meus pacientes a entender melhor o seu tratamento. Percebi que os médicos em geral não tem tanto conhecimento sobre tireóide como o cirurgião de cabeça e pescoço tem. Não é fácil encontrar conteúdo de qualidade voltado para pacientes na internet, pois o dr google já diz que tudo é câncer. Por isso tenho essa missão de compartilhar o que sei para facilitar sua vida! Obrigado!

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