Linfonodo cervical aumentado (também chamado de linfadenopatia cervical ou "íngua no pescoço") é um achado extremamente comum na prática médica. A maioria absoluta é de causa benigna - infecções virais ou bacterianas. Entenda as principais causas, como é feito o exame físico, sinais de alerta e quando investigar.
O que significa linfonodo cervical aumentado
Um linfonodo é considerado aumentado quando ultrapassa certos limites de tamanho:
Critérios de tamanho
Normal:
- Eixo maior <1cm na maioria das regiões
- Podem ser palpáveis em pessoas magras mesmo sem estar doente
Aumentado:
- >1cm no eixo maior em adultos
- Em crianças, >1,5cm (linfonodos são mais reativos)
Significativamente aumentado:
- >2cm: sempre investigar
- >3cm: muito suspeito
Cadeias cervicais
O pescoço possui várias cadeias de linfonodos, cada uma drena regiões específicas:
Submandibular:
- Localização: abaixo da mandíbula
- Drena: dentes, gengiva, lábios, língua, assoalho da boca
- Causa comum: infecções dentárias, gengivite
Submentual:
- Localização: abaixo do queixo
- Drena: lábio inferior, mento, língua anterior
- Causa comum: herpes labial, infecções orais
Jugular (cadeia cervical anterior):
- Localização: ao longo da veia jugular
- Drena: faringe, laringe, tireoide
- Causa comum: faringites, tireoidites, câncer de tireoide
Cervical posterior:
- Localização: atrás do músculo esternocleidomastoideo
- Drena: couro cabeludo posterior
- Causa comum: infecções do couro cabeludo, mononucleose
Supraclavicular:
- Localização: acima da clavícula
- Drena: tórax, abdome (linfonodo de Virchow à esquerda)
- SEMPRE SUSPEITO - investigar com urgência
Occipital:
- Localização: base do crânio, região posterior
- Drena: couro cabeludo posterior
- Causa comum: dermatite seborreica, pediculose
Retroauricular:
- Localização: atrás da orelha
- Drena: couro cabeludo, orelha
- Causa comum: otites, rubéola, infecções do couro cabeludo
Principais causas de linfonodo cervical aumentado
Causas benignas (>90% dos casos)
1. Infecções virais (causa mais comum)
Infecções respiratórias superiores:
- Resfriado comum (rinovírus, adenovírus)
- Gripe (influenza)
- COVID-19
- Linfonodos: cervicais anteriores e submandibulares
- Características: múltiplos, bilaterais, móveis, dolorosos
Mononucleose (Epstein-Barr vírus):
- Transmissão: beijo, saliva
- Sintomas: faringite intensa, febre, cansaço extremo
- Linfonodos: múltiplas cadeias aumentadas (cervical anterior, posterior, submandibular)
- Duração: 2-4 semanas, linfonodos podem persistir 8-12 semanas
Citomegalovírus (CMV):
- Similar à mononucleose, mas mais branda
- Mais comum em imunossuprimidos
HIV agudo:
- Linfadenopatia generalizada (pescoço, axilas, virilha)
- 2-4 semanas após exposição
- Outros sintomas: febre, rash, fadiga
2. Infecções bacterianas
Faringite estreptocócica:
- Bactéria: Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico)
- Sintomas: dor de garganta intensa, pus nas amígdalas, febre alta
- Linfonodos: cervicais anteriores, muito dolorosos
- Responde a antibiótico (amoxicilina)
Infecções dentárias:
- Cáries profundas, abscessos, pericoronarite (dente do siso)
- Linfonodos: submandibulares ipsilaterais (mesmo lado)
- Muito dolorosos
- Só regride após tratamento dental
Tuberculose ganglionar (escrofulose):
- Forma mais comum de tuberculose extrapulmonar
- Linfonodos: cervicais posteriores ou supraclaviculares
- Características: crescimento lento (semanas a meses), pode fistulizar (drenar pela pele)
- Diagnóstico: biópsia + cultura
- Tratamento: tuberculostáticos por 6 meses
Doença da arranhadura do gato (Bartonella henselae):
- História: arranhão ou mordida de gato
- Linfonodos: próximos ao local da lesão (cervical se arranhão no rosto/pescoço)
- Pode ser volumoso e persistente
3. Causas inflamatórias não infecciosas
Reação pós-vacinal:
- Vacinas: COVID-19, gripe, HPV, tétano
- Linfonodos: axilares do lado vacinado (se vacina no braço), cervicais (se vacina aplicada em região cervical em crianças)
- Duração: 2-6 semanas
- Benigno, não precisa tratamento
Doenças autoimunes:
- Lúpus eritematoso sistêmico
- Artrite reumatoide
- Síndrome de Sjögren
- Linfadenopatia generalizada (várias regiões)
Tireoidite:
- Tireoidite de Hashimoto (autoimune)
- Tireoidite subaguda (viral)
- Linfonodos: cervicais anteriores próximos à tireoide
4. Dermatológicas
Dermatite seborreica:
- Couro cabeludo oleoso, descamação
- Linfonodos occipitais e cervicais posteriores
Pediculose (piolho):
- Linfonodos occipitais e cervicais posteriores aumentados
- História de coceira no couro cabeludo
Eczema, psoríase do couro cabeludo:
- Linfonodos occipitais reativos
Causas malignas (<10% dos casos em adultos)
1. Linfomas
Linfoma de Hodgkin:
- Idade: jovens adultos (20-30 anos) ou idosos (>60 anos)
- Linfonodos: cervicais, supraclaviculares, mediastinais
- Características: indolores, borrachudos, crescimento progressivo
- Sintomas B: febre, sudorese noturna, perda de peso
Linfoma não-Hodgkin:
- Mais comum que Hodgkin
- Idade: qualquer idade, mais comum após 60 anos
- Linfonodos: múltiplas cadeias
- Sintomas B menos comuns que em Hodgkin
2. Metástases de outros cânceres
Câncer de tireoide:
- Linfonodos: cervicais laterais (cadeia jugular), compartimento central
- Geralmente associado a nódulo tireoidiano
- Diagnóstico: PAAF com dosagem de tireoglobulina no aspirado
Carcinomas de cabeça e pescoço:
- Primário: cavidade oral, faringe, laringe, glândulas salivares
- Linfonodos: cervicais ipsilaterais
- Fatores de risco: tabagismo, etilismo, HPV
Melanoma de couro cabeludo/face:
- História de lesão pigmentada
- Linfonodos: cervicais posteriores ou submandibulares
Linfonodo de Virchow:
- Linfonodo supraclavicular esquerdo aumentado
- Sugere metástase de câncer abdominal (estômago, pâncreas, ovário)
- Sempre investigar
Exame físico do linfonodo aumentado
O médico avalia as seguintes características:
Tamanho
- Medido em centímetros (eixo maior)
- <1cm: normal ou minimamente aumentado
- 1-2cm: aumentado, investigar conforme contexto
- >2cm: significativamente aumentado, sempre investigar
Número
- Único: mais comum em metástases ou linfadenopatia localizada
- Múltiplos em uma cadeia: sugere causa localizada (faringite → cervicais)
- Múltiplas cadeias (generalizado): sugere causa sistêmica (mononucleose, linfoma, HIV)
Consistência
- Macio/elástico: reacional, benigno
- Firme: pode ser reacional ou limítrofe
- Duro/pétreo: muito suspeito de malignidade
- Borrachudo: sugere linfoma
Mobilidade
- Móvel: linfonodo desliza sob a pele - benigno
- Fixo/aderido: fixação a pele ou estruturas profundas - suspeito de malignidade invasiva
Dor
- Doloroso: geralmente reacional (inflamação ativa)
- Indolor: pode ser benigno (mononucleose) ou maligno (linfoma, metástase)
- Paradoxo: malignidade geralmente NÃO dói
Coalescência
- Isolados: linfonodos individualizados
- Conglomerado: múltiplos linfonodos fundidos - suspeito (tuberculose, linfoma)
Pele sobrejacente
- Normal: maioria dos casos
- Avermelhada, quente: linfadenite bacteriana, abscesso
- Fistulizada (drenando secreção): tuberculose ganglionar
Sinais de alerta que exigem investigação
Red flags maiores (investigar com urgência)
- Localização supraclavicular - risco de malignidade 25-50%
- Duro/pétreo - sugere metástase
- Fixo - invasão de estruturas adjacentes
- Crescimento progressivo - não regride com tempo
- Maior que 2cm sem causa infecciosa clara
- Sintomas B: febre inexplicada, sudorese noturna profusa, perda maior que 10% do peso em 6 meses
Red flags menores (investigar se persistente)
- Tamanho 1,5-2cm
- Múltiplas cadeias sem infecção aparente
- Persistência maior que 4-6 semanas sem regressão
- História de câncer prévio
- Fatores de risco (tabagismo, etilismo, HIV)
Contextos que tranquilizam
- História clara de infecção recente (gripe, faringite)
- Linfonodo doloroso, móvel, macio
- Diminuindo progressivamente
- Criança ou adulto jovem saudável
Exames complementares
Quando solicitar
Observação clínica suficiente:
- Linfonodo <1,5cm, contexto infeccioso claro, características benignas
- Conduta: reavaliar em 2-4 semanas
Exames laboratoriais:
- Hemograma: avaliar leucocitose (infecção), anemia, linfócitos atípicos (mononucleose)
- Sorologias: Epstein-Barr, CMV, HIV, toxoplasmose conforme suspeita clínica
- TSH e T4 livre: se suspeita de tireoidite
Ultrassom cervical:
- Indicado quando:
- Linfonodo >1,5cm persistente após 4 semanas
- Características suspeitas ao exame físico
- Múltiplas cadeias sem causa clara
- Avalia: tamanho exato, formato, hilos preservado, vascularização
Biópsia (PAAF ou core biopsy):
- Indicado quando:
- Ultrassom com características suspeitas
- Linfonodo persistente >2cm após 6 semanas sem causa
- Sinais de alerta presentes
- Forte suspeita de malignidade
Biópsia excisional:
- Remoção cirúrgica do linfonodo inteiro
- Indicado quando:
- PAAF ou core inconclusivas
- Forte suspeita de linfoma (precisa de arquitetura tecidual)
Conduta conforme características
Cenário 1: Linfonodo claramente reacional
- Pequeno (<1,5cm), móvel, doloroso
- Contexto de infecção recente
- Conduta: observação, reavaliar em 4 semanas
Cenário 2: Linfonodo limítrofe
- 1,5-2cm, consistência intermediária
- Sem contexto infeccioso óbvio
- Conduta: ultrassom cervical + exames laboratoriais
Cenário 3: Linfonodo suspeito
- >2cm, duro, fixo, ou localização supraclavicular
- Conduta: ultrassom + biópsia (PAAF ou core)
Cenário 4: Linfadenopatia generalizada
- Múltiplas cadeias aumentadas (cervical, axilar, inguinal)
- Conduta: hemograma, sorologias (Epstein-Barr, HIV, CMV), considerar biópsia
Causas por faixa etária
Crianças (0-12 anos)
Mais comuns:
- Infecções virais respiratórias
- Faringites
- Otites
- Dermatites do couro cabeludo
Características:
- Linfonodos mais reativos (aumentam facilmente)
- Múltiplos linfonodos palpáveis é NORMAL em crianças saudáveis
- Malignidade é rara, mas linfoma pode ocorrer
Adolescentes e adultos jovens (13-30 anos)
Mais comuns:
- Mononucleose
- Faringites virais e bacterianas
- Infecções dentárias
Atenção:
- Linfoma de Hodgkin tem pico nesta faixa etária
Adultos (31-60 anos)
Mais comuns:
- Infecções (ainda predominam)
- Tireoidite
- Metástases de câncer de tireoide ou cabeça/pescoço
Atenção:
- Maior risco de malignidade que jovens
- Investigar mais precocemente se sinais de alerta
Idosos (>60 anos)
Mais comuns:
- Infecções (ainda frequentes)
- Linfoma não-Hodgkin
- Metástases de carcinomas
Atenção:
- Risco de malignidade é mais alto (10-15%)
- Limiar mais baixo para investigação
Sobre o autor
Dr. Jônatas Catunda Cirurgião de cabeça e pescoço, especialista em linfonodos cervicais. Formado pela Universidade Federal do Ceará, professor universitário, mestrado e doutorado em cirurgia pela UFC. CRM 14951 RQE 8522





