Dr. Jônatas Catunda
Ferramentas

Estadiamento do Câncer de Tireoide

Tabelas de referência para classificação TNM, estratificação de risco de recidiva (ATA) e avaliação de resposta ao tratamento. Material de consulta rápida para profissionais e pacientes.

Importante

As tabelas apresentadas são ferramentas de referência clínica baseadas em diretrizes internacionais. O estadiamento e a conduta terapêutica devem ser sempre individualizados pelo médico assistente com base no quadro completo do paciente.

ATA 2025

Estratificação de Risco de Recidiva Estrutural

Estimativa de risco de recorrência em até 10 anos - PTC, FTC e OTC

Carcinoma Papilífero (PTC) e Subtipos

BAIXO RISCO<10% de recorrência

T1 e T2 (≤4 cm):

  • Unifocal
  • pN0a, ou cN0 e pN1a (≤5 linfonodos, todos ≤2 mm)
  • Margens negativas ou apenas microscópica + margem anterior (R1)
RISCO BAIXO-INTERMEDIÁRIO10-15% de recorrência

T3a ou; T1 ou T2 com qualquer dos seguintes:

  • Multifocalidade unilateral
  • Extensão extratiroidiana microscópica (ETE)
  • cN1a ou pN1a >2 mm³ ou >5 linfonodos
  • Margens negativas ou microscópica + margem posterior (R1)
RISCO INTERMEDIÁRIO-ALTO≥16-30% de recorrência

T1, T2 ou T3a com qualquer dos seguintes:

  • Multifocalidade bilateral >1 cm
  • Metástases linfonodais laterais clinicamente evidentes (cN1b) <3 cm
  • 2 ou mais fatores de risco baixo-intermediário
  • Histologia agressiva
  • Invasão vascular
ALTO RISCO>30% de recorrência

T3a + ETE microscópica, T3b ou T4; ou QUALQUER T com qualquer dos seguintes:

  • Pobremente diferenciado ou alto grau
  • Ressecção incompleta grosseira (R2)
  • cN1 ≥3 cm
  • Extensão extranodal (ENE)
  • Metástase à distância (M1)

Nota: Esta classificação ATA 2025 refina a estratificação de risco com 4 categorias ao invés de 3, permitindo personalização mais precisa do tratamento e seguimento. A categoria "baixo-intermediário" (10-15%) foi adicionada para identificar pacientes que não necessitam da intensidade de seguimento do risco intermediário-alto tradicional.

ATA 2025

Classificação de Resposta ao Tratamento

Critérios baseados no tipo de intervenção inicial

Pós-tireoidectomia total e/ou esvaziamento cervical com ablação ou terapia com RAI

Resposta Excelente

Critérios:

  • Tg não-estimulada <0,2 ng/mL OU
  • Tg estimulada <1 ng/mL
  • Anticorpo anti-Tg negativo
  • Imagem negativa

Meta de TSH:

TSH dentro da faixa de referência normal

Resposta Indeterminada

Critérios:

  • Achados inespecíficos em exames de imagem OU
  • Tg não-estimulada 0,2-1 ng/mL OU
  • Tg estimulada 1-10 ng/mL OU
  • Níveis de TgAb estáveis/decrescentes

Meta de TSH:

TSH dentro da faixa de referência normalᵇ

Resposta Bioquímica Incompleta

Critérios:

  • Tg não-estimulada >1 ng/mL OU
  • Tg estimulada >10 ng/mL OU
  • Níveis de TgAb crescentes
  • Imagem negativa

Meta de TSH:

TSH abaixo da faixa de referência normalᶜ

Resposta Estrutural Incompleta

Critérios:

  • Evidência estrutural de doença:
  • • Imagem suspeita OU
  • • Biópsia comprovando doença local ou metástase à distância

Meta de TSH:

TSH abaixo da faixa de referência normalᶜ

Notas:

  • N/A: Veja a Recomendação 48 para comentários específicos sobre níveis de Tg (ng/mL) em pacientes tratados com hemitireoidectomia.
  • Supressão leve de TSH pode ser considerada em alguns pacientes (ex: risco intermediário-alto inicial).
  • O grau de supressão de TSH deve ser individualizado com base no risco inicial, extensão da doença residual, e risco de complicações da supressão.

ATUALIZAÇÃO

Principais Mudanças: ATA 2015 → 2025

Atualizações nas diretrizes de manejo do câncer diferenciado de tireoide

1

Estratificação de Risco Contínua (Dynamic Risk Stratification)

2015

Estratificação de risco inicial (pós-operatória) era relativamente estática, baseada principalmente em características histopatológicas.

2025

Ênfase em reavaliação contínua do risco com base na resposta ao tratamento. O risco inicial pode ser modificado com dados do seguimento (Tg, anti-Tg, USG, PCI).

2

Lobectomia versus Tireoidectomia Total

2015

Lobectomia pode ser suficiente para tumores 1-4 cm, unifocais, sem extensão extratiroidiana, N0, M0. Tireoidectomia total era preferida na maioria dos casos.

2025

Reforça lobectomia como tratamento definitivo adequado para carcinomas papilíferos de baixo risco (até mesmo alguns > 4 cm, se sem outros fatores de risco). Reduz indicações de tireoidectomia total.

3

Iodoterapia Adjuvante

2015

Recomendava iodo em alto risco, considerava em risco intermediário, e não recomendava em baixo risco. Doses típicas: 100-150 mCi.

2025

Ainda mais seletiva. Em muitos casos de risco intermediário, observação é preferível a iodo empírico. Doses menores (30-50 mCi) podem ser suficientes quando indicado (especialmente para ablação de remanescente).

4

Supressão de TSH no Seguimento

2015

TSH < 0,1 mUI/L para alto risco; 0,1-0,5 para intermediário; 0,5-2,0 para baixo risco. Mantinha supressão por 5-10 anos em muitos casos.

2025

Permite relaxamento mais precoce da supressão se resposta excelente confirmada (TSH 0,5-2,0 já no primeiro ano em alguns casos). Reduz risco cardiovascular/ósseo em pacientes curados.

5

Vigilância Ativa para Microcarcinomas

2015

Vigilância ativa mencionada como opção apenas para microcarcinomas papilíferos de muito baixo risco em pacientes selecionados.

2025

Reforça vigilância ativa (observação sem cirurgia imediata) como opção viável e segura para microcarcinomas papilíferos (< 1 cm) sem critérios de alto risco. Dados japoneses com seguimento > 10 anos validam segurança.

6

Esvaziamento Linfonodal Profilático do Compartimento Central

2015

Esvaziamento central profilático (sem linfonodos clinicamente evidentes) poderia ser considerado em T3/T4 ou N1b.

2025

Mais conservadora. Esvaziamento central profilático não recomendado rotineiramente em T1-T2 N0. Reservado para casos selecionados (T3/T4, suspeita alta de N1a ao USG intraoperatório).

7

Testes Moleculares (BRAF, RAS, etc.)

2015

Mencionava testes moleculares como auxiliares diagnósticos em nódulos indeterminados (Bethesda III/IV), mas não integrava ao manejo pós-operatório.

2025

Incorpora dados moleculares (BRAF V600E, TERT promotor) na estratificação de risco. Tumores BRAF+ com multifocalidade/extensão extratiroidiana têm risco aumentado e podem influenciar indicação de iodo.

8

Resposta ao Tratamento e Reclassificação

2015

Introduziu classificação de resposta (excelente, indeterminada, bioquímica incompleta, estrutural incompleta), mas não detalhou reclassificação do risco inicial.

2025

Enfatiza que pacientes inicialmente classificados como risco intermediário ou até alto podem ser reclassificados como baixo risco se apresentarem resposta excelente precoce (Tg indetectável, USG normal aos 9-12 meses).

Mensagem Principal das Mudanças

As diretrizes ATA 2025 refletem uma abordagem ainda mais conservadora e individualizada, priorizando:

  • De-escalada terapêutica: Menos cirurgias extensas, menos iodo, menos supressão de TSH prolongada em pacientes de baixo risco.
  • Risco dinâmico: Reavaliação contínua com base na resposta ao tratamento, não apenas fatores iniciais.
  • Vigilância ativa: Observação sem tratamento imediato em casos muito selecionados de microcarcinomas.
  • Biomarcadores moleculares: Integração de testes genéticos para refinar prognóstico e conduta.

TNM 8ª EDIÇÃO

Classificação TNM do Câncer de Tireoide

AJCC/UICC 8ª edição (2017)

Tumor Primário (T)

CategoriaDefinição
TXTumor primário não pode ser avaliado
T0Sem evidência de tumor primário
T1Tumor ≤ 2 cm, limitado à tireoide
T1aTumor ≤ 1 cm, limitado à tireoide
T1bTumor > 1 cm e ≤ 2 cm, limitado à tireoide
T2Tumor > 2 cm e ≤ 4 cm, limitado à tireoide
T3Tumor > 4 cm limitado à tireoide, OU qualquer tumor com extensão extratiroidiana mínima (ex: músculo esternotireóideo ou tecidos moles peritumorais)
T3aTumor > 4 cm, limitado à tireoide
T3bTumor de qualquer tamanho com extensão extratiroidiana grosseira mínima (músculo esternotireóideo ou tecidos moles peritumorais)
T4Extensão extratiroidiana grosseira
T4aInvasão de tecido subcutâneo, laringe, traqueia, esôfago ou nervo laríngeo recorrente
T4bInvasão de fáscia pré-vertebral, artéria carótida ou vasos mediastinais

Linfonodos Regionais (N)

CategoriaDefinição
NXLinfonodos regionais não podem ser avaliados
N0Sem metástases em linfonodos regionais
N1Metástases em linfonodos regionais
N1aMetástases em linfonodos do compartimento central (nível VI e VII - pré-traqueais, paratraqueais, pré-laríngeos/Delphian)
N1bMetástases em linfonodos cervicais laterais (níveis I, II, III, IV, V) ou mediastinais superiores

Metástases à Distância (M)

CategoriaDefinição
M0Sem metástases à distância
M1Presença de metástases à distância

Grupos de Estadiamento (Carcinoma Papilífero e Folicular)

A classificação difere para pacientes <55 anos e ≥55 anos

Pacientes < 55 anos

EstádioTNM
IQualquer TQualquer NM0
IIQualquer TQualquer NM1

Pacientes ≥ 55 anos

EstádioTNM
IT1a, T1b, T2N0, NXM0
IIT1, T2, T3N1M0
IIT3N0, NXM0
IIIT4aQualquer NM0
IVAT4bQualquer NM0
IVBQualquer TQualquer NM1

ATUALIZAÇÃO TNM

Principais Mudanças na 8ª Edição TNM

Carcinoma Diferenciado de Tireoide - AJCC/UICC 8ª edição comparada à 7ª edição

1

Ponto de corte etário aumentado de 45 para 55 anos ao diagnóstico

A idade usada para estratificação de estadiamento foi elevada, refletindo evidências de que pacientes até 55 anos têm prognóstico mais favorável.

2

Extensão extratiroidiana mínima microscópica removida da definição de T3

Extensão extratiroidiana detectada apenas no exame histológico não impacta mais a categoria T nem o estádio geral, dado que seu impacto prognóstico é limitado.

3

Doença N1 não eleva mais pacientes <55 anos ao estádio III

Se idade <55 anos ao diagnóstico: N1 = estádio I. Se idade ≥55 anos: N1 = estádio II. Metástases linfonodais têm menor impacto prognóstico em pacientes jovens.

4

T3a: nova categoria para tumores >4 cm confinados à glândula tireoide

Permite melhor estratificação de tumores maiores que 4 cm mas ainda intratiroideianos, separando-os de tumores com extensão extratiroidiana.

5

T3b: nova categoria para tumores com extensão extratiroidiana grosseira em músculos da cintura (strap muscles)

Tumores de qualquer tamanho demonstrando extensão extratiroidiana grosseira para músculo esternohioideo, esternotireóideo, tireohioideo ou omohioideo.

6

Linfonodos nível VII reclassificados de laterais (N1b) para centrais (N1a)

Linfonodos do nível VII (mediastino superior), anteriormente classificados como metástases laterais (N1b), foram reclassificados como linfonodos do compartimento central (N1a).

7

Mudança na classificação de metástases à distância em carcinoma diferenciado de tireoide

No CDT, metástases à distância em pacientes mais velhos = estádio IVB (não mais IVC). Em carcinoma anaplásico, metástases à distância continuam classificadas como estádio IVC.

Impacto Clínico: Essas mudanças resultaram em significativo downstaging de muitos pacientes, especialmente aqueles <55 anos com doença N1 ou extensão extratiroidiana microscópica, refletindo melhor o prognóstico real e evitando sobretratamento.

Referências

Base científica das tabelas

2015 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Thyroid Nodules and Differentiated Thyroid Cancer

Haugen BR, Alexander EK, Bible KC, et al.

Thyroid. 2016;26(1):1-133. DOI: 10.1089/thy.2015.0020

AJCC Cancer Staging Manual, 8th Edition

Amin MB, Edge S, Greene F, et al. (Eds.)

Springer International Publishing, 2017

2025 American Thyroid Association Management Guidelines for Adult Patients with Differentiated Thyroid Cancer

Ringel MD, Sosa JA, Baloch Z, Bischoff L, Bloom G, Brent GA, et al.

Thyroid. 2025;35(8). Published Online: 20 August 2025. DOI: 10.1177/10507256251363120

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