• Jônatas Catunda de Freitas

Quando um paciente ensina algo muito importante ao médico

Atualizado: Fev 9

Lembro muito bem de uma paciente que abriu meus olhos para o futuro que já está acontecendo na Medicina, logo nos primeiros meses como especialista efetivamente formado. É engraçado como após 10 anos de treinamento – 6 anos de faculdade, 4 anos de residência – saímos totalmente despreparados para o mercado de trabalho, e uma paciente conseguiu me mostrar o caminho certo.


No últimos meses da residência, percebi essa deficiência e me dediquei a aprender o básico sobre marketing digital. Após estudar no Google e no Youtube, montei um site, criei um blog, fiz vídeos para o youtube, abri uma página no facebook e no Instagram. Mas naquela época não acreditava tanto no potencial disso, pois não via quase nenhum médico produzindo conteúdo e os que produziam geralmente não eram especialista em nada.


“As pessoas só usam as redes sociais para entretenimento” eu pensava. “Só querem saber do Whindersson Nunes”.


Minha rotina no começo era bem corrida, pois fazia tudo o que os outros faziam sem saber o que de fato funcionava e quase não tinha tempo livre: atendia planos de saúde num consultório em um Hospital conhecido, atendia numa clínica popular no centro da cidade, operava pacientes SUS em um hospital meio trash, atendia em várias cidades do interior do estado e ainda dava plantões como cirurgião geral para complementar a renda.


“O começo sempre é difícil.”

“Atenda todos os planos de saúde para ficar conhecido”

“Vá para o consultório e fique estudando, mesmo que não tenha nenhum paciente”

“Faça consultório todo dia.”

“Os pacientes vão vir aos poucos.”


Isso era o que eu escutava dos mais antigos. Esses conselhos funcionaram muito bem em outra época. Mas isso tem mudado com a Internet.


Os planos de saúde foram uma grande decepção e ter esse atravessador não me agradou nem um pouco.

  1. Não me trouxeram pacientes como eu achava que trariam. É comum acreditar que pagam menos mas vão trazer um volume elevado de pacientes. Mesmo fazendo marketing, poucos pacientes marcavam consulta e alguns deles eram bem incômodos…

  2. Havia pacientes arrogantes que, por pagarem caro pelo plano, se achavam superiores e me tratavam de forma quase desrespeitosa, demandando solicitações de exames desnecessários e encaminhamentos para procedimentos desnecessários como forma de compensar o valor pago pelo plano.

  3. Havia pacientes que vinham para a consulta só para testar se os médicos anteriores estavam fazendo correto. Alguns diziam logo no começo da consulta, outros não diziam mas era possível saber pois havia o nome do colega na requisição dos exames. Uma relação que se iniciava com desconfiança.

  4. O valor que os planos pagavam por cirurgia era baixíssimo e, para compensar, via colegas utilizando códigos errados ou solicitando aparelhos desnecessários para receber compensação por fora, como se pagar mal justificasse fraudar o sistema.

E tive experiências muito tristes com o SUS:

  1. Barreiras desnecessárias para operar pacientes oncológicos (exemplos – atrasos de semanas em autorizar a cirurgia, exigir uma biópsia confirmando que é câncer antes de operar quando muitas vezes a própria cirurgia é para obter a biópsia e coletar o material)

  2. Resultados de biópsias atrasando o tratamento, ao ponto de em um caso, após 45 dias, o paciente se tornar paliativo e perder a única chance que ainda tinha.

  3. Hospital segurando paciente na UTI por mais dias do que o necessário apenas para não receber pacientes mais graves das UPAS.

  4. Fraudes cometidas por colegas nas mais diversas formas.

  5. Atraso e instabilidade nos pagamentos – 7 meses trabalhando para começar a pagar. Comecei a receber quando já havia desistido de trabalhar nessas condições.

“Errado é errado mesmo que todos estejam fazendo, e o certo é certo mesmo que ninguém esteja fazendo”


Até que atendi uma paciente que colocou em palavras o que intuitivamente eu já estava percebendo. Esse feedback me mostrou o caminho certo, que muitos médicos ainda não perceberam.


Atendi essa paciente na clínica popular em Fortaleza. Após o atendimento, ela agradeceu pela consulta, me contou que havia perdido o plano de Saúde e agora tudo era particular, consultas e exames. Então disse que sempre procurava no Google quando precisava de um médico, viu meus vídeos, gostou e marcou a consulta particular. E soltou isso:


“Quem paga consulta particular não tem essa opção de ficar indo a vários médicos e ouvindo várias opiniões diferentes, como no planos de saúdes. “


“Quando a consulta é particular, procuro ao máximo ir no médico certo, por isso pesquiso muito antes da consulta até ter certeza que aquele é o médico que vai resolver o meu problema.”


Desde esse atendimento, tracei um plano para captar mais pacientes como ela e trabalhar apenas nesses locais onde eu me sentia bem atendendo. Aos poucos fui conseguindo atingir esse objetivo.


Hoje estou muito satisfeito com o rumo que a minha carreira seguiu e trabalho com amor fazendo o que sempre quis fazer. Não atendo por planos de saúde, não atendo pelo SUS (mais pela falta de um Hospital decente que abra as portas), não dou plantões, faço consultas e cirurgias particulares em Fortaleza e atendo em várias cidades do interior do Estado.


Ao contrário do estereótipo dos médicos, tenho uma qualidade de vida excelente, pratico exercícios todos os dias, me alimento bem, vejo minha família todos os dias, tenho vários projetos paralelos a Medicina que pude me dedicar justamente por ter mais tempo livre e faz tempo que não sei o que é me matar de trabalhar. A vida é muito curta para isso.


Tudo isso só foi possível porque continuei produzindo cada vez mais conteúdo e sendo cada vez mais encontrado por quem precisa da minha especialidade, através das redes sociais!


Nesse meio tempo ainda atingi um dos objetivos que nem estava nos planos de agora, o de ser Professor Universitário!


E ainda estou só começando!

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